
Adoro receber convites para ir ao cinema. Antes de fazer terapia, costumava dizer que cinema era minha “válvula de escape”, e não deixa de ser até hoje. Nesta sexta-feira (21), recebi logo cedo um e-mail convite da minha amiga Manu com três opções de filmes. O primeiro “Bem-vindo a São Paulo”, o outro “Maria Bethânia – pedrinha de aruanda” e o terceiro “Mujeres Infieles” – em cartaz no Ciclo do Cinema Chileno.
Chegamos atrasadas (claro!) e corremos para assistir “Bem-vindo a São Paulo”. Confesso que tinha outra idéia do filme, com mais movimento e histórias que retratassem a vida corrida e individualista da cidade mais importante da América Latina – correspondente a 15% do Produto Interno Bruto (PIB), o que a torna a metrópole mais populosa do Brasil e a terceira do mundo depois de Tóquio e Cidade do México. Não foi bem assim. O filme mostra o lado triste daquela cidade, a solidão. Mas não é do filme que quero falar. Na verdade, foi uma desculpa para dizer o quanto lembranças boas o filme me trouxe.
Poucos sabem, mas meu pai é do interior paulista, Mirassol e cresceu na cidade vizinha São José do Rio Preto, cerca de 450 quilômetros da capital. Com três meses de idade eu viajei pela primeira vez a São Paulo, onde todos queriam conhecer o novo rebento da família Marques. Retornei com um ano de idade para ser batizada na Igreja S. Judas Tadeu e tive como padrinhos: tio Rubens (irmão do meu pai) e avó Amália (mãe do meu pai). a partir daí, eu e a família passamos as férias dos anos seguintes em São Paulo, o que aconteceu até meus 12 anos.
Definitivamente, o cinema e São Paulo mexem com as minhas emoções. Mesmo quando a sala é ruim, mesmo quando o preço é um abuso, mesmo quando o filme não corresponde às expectativas… Mesmo quando eu nem pensava em ir, como nesta sexta-feira, o cinema me chama e eu vou. Já Sampa, todas as vezes que visito aquela cidade vem à tona muito sentimento, em geral ligado a coisas mais primárias, que são a família e as primeiras experiências emocionais.
A música
Por ironia do destino, através da interpretação dos Demônios da Garoa, a música Trem das Onze (paulistaníssima) venceu o concurso de músicas carnavalescas no quarto centenário da fundação do Rio de Janeiro. Fuçando o site www.estacoesferroviarias.com.br, achei que a Estação do Jaçanã foi aberta em 1910, próxima ao Asilo dos Inválidos, no Guapira, aliás o nome original da estação. É a mais famosa das estações da Cantareira, pois foi a inspiração para a música Trem das Onze. Trem que, aliás, nunca existiu, pois o último trem saía às 20h30. A estação foi desativada em 1965, com o ramal, e foi demolida no ano seguinte. Hoje nada indica que ali um dia existiram trilhos ou uma estação. Ficava onde hoje está localizada a praça Comendador Alberto de Souza.
Bem-Vindo a São Paulo é uma produção da Mostra Internacional de Cinema em forma de criação coletiva, com assinatura dos seguintes cineastas internacionais convidados para o projeto: Phillip Noyce, Mika Kaurismäki, Jim McBride, Hanna Elias, Maria de Medeiros, Kiju Yoshida, Mariko Okada, Tsai Ming Liang, Ash, Mercedes Moncada, Franco de Pena, Andrea Vecchiato, Max Lemcke, Amos Gitai, Daniela Thomas e Wolfgang Becker. O filme é narrado por Caetano Veloso e tem trilha musical assinada por André Abujamra.
Sinto muito amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã
Além disso mulher, tem outra coisa
Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar
Sou filho único, tenho minha casa prá olhar
Não posso ficar, não posso ficar...
Não posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã
Além disso mulher, tem outra coisa
Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar
Sou filho único, tenho minha casa prá olhar
Não posso ficar, não posso ficar...

